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Sem Limites

O lar virtual daquele que não pode ser mais e nem ousa ser menos.

Darcangelo Sam

职业
兴趣
"Homem livre, tu sempre gostarás do mar" (Baudelaire)
作者 
11月22日

O Causo da Onda Esquisita

Aproveitando o último dia de férias, Lisa me incumbiu de planejar um passeio. Eu tinha várias opções. A primeira que me passou pela cabeça foi uma visita à praia de Pântano do Sul, onde é possível caminhar pela areia e encontrar até estrelas-do-mar e outras coisas exóticas. Porém, e se chovesse?

Pensei então em ir para o meio caminho da Serra, comprar mel num lugar chamado Angelina. Porém, era viagem de quase uma hora e só tínhamos meio turno para o passeio. Foi aí que decidi por visitar Jurerê, uma praia do norte da ilha, local do nosso casório.

O meio-turno logo se transformou em um quarto, devido ao sol forte e calor insuportável. Simplesmente não dava para sair de casa após o meio-dia. Decidimos sestear e sair após a metade da tarde.

No primeiro momento, achamos que tínhamos feito um bom negócio, pois nuvens encombriram o sol e um vento refrescante começou a soprar. No entanto, já quase chegando a Jurerê, percebemos que as nuvens estavam pretas, nem cinza mais elas eram! Uma massa da água gigantesca suspensa sobre nossas cabeças, e quanto aquele vento refrescante... bem:

- Sam, tem um monte de folhas secas nos ultrapassando.

E eu, achando que a Lisa estava novamente de sacanagem com o Brisa Negra, porque ele tem motor 1.0:

- Imagina! Nós estamos a 80 km por hora! Se têm folhas passando a gente, chama o guarda pra multar!

Nisso, uma tampa de plástico atingiu violentamente o carro e os primeiros pingos de água começaram a cair. Nos abrigamos no Trilegal, uma lancheria macanuda que tem lá em Canasvieras e esperamos a tormenta passar, comendo isca de peixe e tomando limonada. Nem chegou a chover muito, mas, observando as nuvens que estavam carregadas mais para o leste e sul da ilha, não pude deixar de comentar com a Lisa:

- Vamos ficar de olho naquele gordinho ali na praia, se ele correr para as montanhas, vamos seguindo ele antes do tsunami chegar.

E foi só isso, voltamos para casa numa boa.

No dia seguinte... Vocês lembram para onde eu queria ir em primeiro lugar, né? Pois então, imaginem minha cara ao ver o Jornal do Almoço e ficar sabendo que os ventos chegaram mesmo aos 110Km por hora! Fui ultrapassado pór um bando de folhas secas!

Já lá no Pântano do Sul, uma Freak Wave resolveu invadir a praia onde eu me imaginei passeando com a Lisa! Sim, uma onda gigante invadiu a praia e levou os barcos para o lugar aonde eu estaciono o meu carro quando lá. Imaginem a minha cara vendo isso:

http://mediacenter.clicrbs.com.br/templates/player.aspx?uf=2&contentID=86746&channel=47

É, meus amigos, Floripa é uma ilha muito mais perigosa do que a de Lost.

11月6日

A Balada do Velho Kadett

Em 1999, minha família comprou o primeiro carro da casa e eu fui escalado como o motorista oficial. Foi assim que conheci o Kadet bordô metálico, ano 97, que meu primo sacana apelidou, tão logo o viu, de Sagu.

"Sagu I" - eu o corrigi, já batizando o veículo.

E assim, ao longo de dez anos - uma década! - eu e o Kadett percorremos juntos cerca de 80.000 quilômetros.

O que dá para transportar num carro? Bom, cabe praticamente uma vida inteira. Foi nele, por exemplo, que eu trouxe toda a minha mudança de Bento Gonçalves para Floripa. Mala, cuia e até uma mesa de jantar de seis lugares. Tudo dentro do bom e velho Kadett, para espanto do fiscal do ICMS que nos parou na estrada.

Falando em transportes importantes, talvez o maior de todos tenha sido quando ele trouxe minha atrasada noiva, às pressas, para o casamento! Naquela ocasião, ele nem mesmo se importou em ser dirigido pela madrinha Sabrina, que achou que viria apenas para uma grande festa e nem imaginou que acabaria tendo que atuar como piloto de Fórmula 1.

Lá atrás, bem no início da história, o Kadett teve que me suportar, pois eu recém tinha aprendido a dirigir e, Caxias como sou, me recusei a andar de carro "ilegalmente" para ir treinando antes da chegada de nosso primeiro carro. Às vezes eu gostaria de ser como o meu primo Rodrigo, que nos sábados ia correndo lavar o carro do padre para depois conseguir do reverendo a permissão de levar o carro para dar uma volta, sob o pretexto de "secá-lo mais rápido". Meu primo tinha muito status, imaginem, ele dava bandas pela cidade no fusca do padre!

Já eu, quando comecei a dirigir, logo fui tentar tirar o Kadett da vaga na garagem e entortei uma porta em uma coluna (argh!). Depois, indo para a praia, pois sempre íamos para a praia no verão, eu achei estranho o modo como o carro, na chuva, ia trocando de pista sem minha autorização. Dudu, o mecânico da família, quase teve um treco quando levei o carro para ele ver. Haviam nos vendido um veículo com os pneus mais carecas que o Esperidião Amin.

No ano seguinte, eu já estava um ásno volante. Tão ás que passei voando por uma fiscalização eletrônica. R$ 128,00 para eu não esquecer mais daquele maldito pardal em São Sebastião do Caí. Mais um ano, mais um show do ásno volante. Mesmo pardal, mais a multa foi de R$ 560,00, pois dessa vez eu estava dirigindo mais rápido.

Nos últimos anos, o Kadett vinha sofrendo comigo. Um estranho numa terra estranha. Não havia estacionamento disponível no centro de Floripa e tive que deixá-lo na rua, pegando o sereno noturno, o sol quente do meio-dia e a maresia constante. Ele suportou tudo com dignidade, mesmo com sua pintura queimando dia após dia, mesmo com um flanelinha marginal riscando sua lataria porque o encontrou repousando em lugar inadequado. Ele suportou tudo isso e, para ser sincero, as únicas vezes em que me deixou empenhado na estrada foram quando eu me esqueci de colocar gasolina nele. Alias, isso era uma manha constante: sem gasolina, ele se recusava a andar.

Ano passado, Gabriel, meu priminho de seis anos, enquanto eu dava carona para ele e sua mãe, comentou com o Bruninho que estava ao lado:

Bruninho: "Que legal, um Kadett!"

Gabriel: "Ah! Tu gosta de carro velho?"

Chegou a me dar uma dor no coração. Percebem como a inocência das crianças pode ser cruel? Dizer uma coisa dessas sobre o Sagu, dentro do Sagu!

Ora, o vermelho podia já ter doze anos de idade, mas quando estava na estrada, mostrava para todos os Unos Milles, como o do pai do Gabriel,  o que era ter um motor 2.0 de Vectra. Eu pisava no acelerador e o mundo ficava para trás. Bom, ok, é certo que alguns Toyotas, Hondas e Audis passavam por mim, mas Celtas, Corsas, Uno Milles, Clios, Kas? Jamais! Era só acelerar e logo o Kadett alcançava os 120Km. Nessa velocidade, ele até economizava mais gasolina. Era a sua velocidade favorita, e ele ia nela feliz e contente. Essa era a balada do velho Kadett.

Nos últimos tempos, admito que ele já andava dando sinais de sua longa vida. Ele parecia se sentir melhor nos 100 Km/h e uma série de outros detalhes mostravam sua fadiga. Foi então que finalmente fomos sorteados no consórcio do carro zero. No dia em que fomos na concessionária pegar o carro novo, nem chegamos a ver o momento em que o Kadett foi recolhido para o fundo do pátio. Num momento, ele estava lá, brilhando ao sol, bonito como sempre, no seguinte, não estava mais.

Já faz um mês que estou conhecendo e dando as boas-vindas ao novo carro. Ele é preto, pensei em chamá-lo de Jabuticaba II, mas Lisa observou que ou era Jabuticaba I ou Sagu II e que ela não gosta nem da fruta, nem do doce. Aí, inspirado em uma famosa canção gaúcha, lancei: "Que tal Vento Negro?". Lisa respondeu: "Vento Negro? Mas é um carro com motor 1.0! Eu acho que vi até um Fusca nos ultrapassando!". Senhores, dêem as boas vindas ao meu novo carro, o Brisa Negra!

Quanto ao Kadett. Sabem de uma coisa? Ele é apenas um bem material. Levar meu tio para a praia no último ano de vida dele, saber que minha madrinha dirigiu bravamente para trazer minha esposa até o altar, tudo isso são recordações da minha vida que não foram e não serão jamais vendidas.

O Kadett será reformado, será revendido e, certamente, fará a alegria de mais uma família por aí afora. Feliz de quem o comprar. E, quem sabe um dia, quando ele não tiver mais como rodar por esse mundo, talvez venha comigo para andarmos juntos por outros campos.

10月30日

Falando sobre Grooveshark Widget: Single Song

Que espetáculo!

    

9月5日

STRIX ESTÁ MORTA

 

Um conto de mistério de Lorde Samael Darcangelo
dedicado para sua adorável e rasteira maninha,
Strix Van Allen

INDÍCE

Prólogo – Luciana, a Maga
1 – Ciruilian, o Romântico
2 – Sabrina, a Xerife
3 – Zé Moitão & Portuga, os Traficantes
4 – Strix, a Morta
5 – Samael, o Mentiroso

Prólogo - Luciana, a Maga

O ambiente dentro da cabana estava carregado de uma fumaça com aroma enjoativo. O jovem que estava sentado em frente à fogueira não sabia dizer o que a mulher que ele viera consultar estava jogando naquele fogo, mas algo lhe dizia que era melhor não saber. Enquanto a maga se concentrava, balançando o corpo em um movimento rítmico que parecia imitar as chamas à sua frente, o jovem aproveitou para olhar novamente em volta. Lembrou que a cabana era pequena e estava localizada já perto da encosta, junto ao início da mata fechada. Para piorar, dentro estava abarrotada de estranhos objetos: medalhões, bonecos de pano, artefatos indígenas e potes de vidro contendo ervas, tubérculos e serpentes em conserva.

Embora fosse menor que ele, a mulher de vestido preto sentada do outro lado da fogueira fazia o sangue do jovem gelar nas veias.

"Como é que eu vim parar num lugar desses?" - pensou Ciruilian, enquanto a maga continuava em transe, agitando seu cabelo preto e liso de um lado para o outro.

- Você está aqui porque não consegue esquecer uma mulher. - falou a maga, tão de repente que Ciruilian quase deu um grito.

- Sim, srta. Bertini... - respondeu ele.

- Pode me chamar de Maga Lu...

- Sim, bem, Dona Magalu, como eu expliquei...

A maga olhava fixamente para as chamas. Ela o interrompeu:

- Vejo que ela está morta...

- Sim! Strix está morta! - respondeu Ciruilian com voz arrasada.

- ... Mas ainda vive. - continuo a maga.

- Exato! É isso! Ela ainda vive em meu coração! Foi tudo tão de repente, ela foi assassinada e eu sequer pude revelar meu amor!

A maga suspirou impaciente e fixou seus grandes olhos negros em Ciruilian, fazendo-o calar na hora. Ainda encarando o rapaz, ela perguntou:

- Está disposto a pagar qualquer preço?

- Claro! Vim aqui justamente porque estou disposto a tudo! Eu preciso esclarecer esse mistério, eu preciso saber quem fez isso com Strix!

- Então estenda sua mão.

Ciruilian obedeceu e a maga puxou a mão estendida até que ficasse sobre as chamas. O calor já ia lhe provocando dor, mas ele nem teve tempo de reclamar, pois a maga sacou um punhal reluzente de dentro de uma bolsa preta e, antes que ele piscasse, já havia um corte em seu braço. Várias gotas de sangue caíram dentro do fogo.

- Está feito. - declarou a maga.

O silêncio reinou na cabana. Ciruilian, meio tímido, característica marcante de sua personalidade, arriscou uma pergunta:

- E agora?

A maga sorriu para ele:

- Agora você volta para sua casa e espera pela verdade. HUA HUA HUA HUA!

- Hein? Que foi isso? Pra quê essa gargalhada?

- Ah! Só achei que um final de conversa a la thriller ia ficar legal! Agora seja um bom menino e me ajude a levantar daqui.

Ciruilian, meio aturdido, ajudou a maga a levantar e também a apagar o fogo.

- Vamos, vamos, meu caro! Você era o último cliente da noite e eu já estou atrasada! Vlad está me esperando!

- Vlad Tepes!? - gritou Ciruilian, assustado.

- Ha ha ha ha ha! Você tem uma imaginação bem fértil, hein? Não, não... É apenas Vlad, meu namorado, esperando aí fora e, se bem o conheço, já deve estar impaciente. Temos uma pilha de legendas para fazer ainda hoje...

- Legendas?

- Sim, sou uma tradutora, só trabalho com feitiçaria eventualmente. Sabe como é... Hoje em dia todo mundo tem que se virar aqui no Brasil...

- Mas, mas, mas... Achei que você vivia...

- Fazendo feitiços? Estamos no século XXI, querido! Nenhum feitiço pode competir com a internet de banda larga.

- Mas as cobras em conserva...?

- Ah! Gostou dessa parte? Olhe de novo, são só cordas bem pintadas e enroladas numa garrafa com água. Na penumbra enganam direitinho, não? Acho que dão um toque de mistério ao ambiente, não é mesmo?

Eles já iam saindo da cabana. Ciruilian estava visivelmente decepcionado. A maga Lu percebeu o desapontamento do jovem e disse em tom suave:

- Sem a ambientação, ninguém acredita que é para valer. Entenda, é o seu desejo manifesto o que conta, todo o resto é perfumaria!

Então ela subiu na carona de uma Harley Davidson, guiada por um gigantesco motoqueiro de jaqueta de couro, provavelmente o tal Vlad. A moto arrancou em alta velocidade e Ciruilian restou ali, sozinho em frente à cabana abandonada, com uma ferida no braço e uma sensação incomoda de que havia sido feito de trouxa e perdera dinheiro.

 

Capítulo 1 - Ciruilian, o Romântico

O dia estava lindo na manhã seguinte, quando Samael chegou ao balneário de Piçarras. O sol fazia o mar brilhar como se fosse feito de metal e, ofuscada pelo brilho solar, só se podia ver o contorno da Ilha Feia, por onde passeavam vários barcos de pescadores e bandos de gaivotas. Ao observar toda aquela beleza, Samael olhou para o alto e murmurou: “Caprichou hoje, hein?

Samael estava usando uma bermuda jeans e camisa florida, no mais puro estilo “Jesus, quê-qui-é-isso?”. Um boné preto do Detroit Tigers e óculos de sol completavam a indumentária. Ele achou exagerado cultivar um bigode e certamente uma Ferrari estava fora de cogitação, por isso, ele dirigia um Kadett vermelho.

O recém chegado estacionou o carro na frente de um luxuoso casarão, localizado em uma pequena elevação, quase à beira-mar, de onde se podia avistar toda a parte central da praia de Piçarras. Ele saiu do veículo e se dirigiu ao portão de acesso, tocou o interfone, mas logo percebeu que o aparelho fora quebrado por algum malandro. Tentou bater palmas, tudo o que apareceu no quintal foram dois dobermanns gigantescos. E agora?

O muro tinha quase quatro metros de altura, tal qual o portão. Samael deu uma olhada para os lados e percebeu que ainda era cedo e ninguém estava passeando pela praia. Vendo que a barra estava limpa, saltou o muro. Assim que aterrissou, já do lado de dentro, os dois cães ganiram assustados e fugiram para trás de uma grande figueira, localizada no meio do pátio.

Samael balançou a cabeça, à moda dum leão que sacode a juba, e seguiu em frente até chegar a uma varanda, então gritou:

- Ô de casa!

O jovem que estava lendo deitado na rede tomou um dos maiores sustos da sua vida. Deu um salto e o livro, que Samael pode observar ser Lua Nova, de Stephanie Meyer, saiu voando pelos ares, indo cair dentro de um pequeno laguinho artificial localizado ao lado da varanda.

- Opa! Mil perdões pelo susto. – disse Samael, com ar divertido.

- Mas, mas... Que diabos! Como é que você entrou aqui? Cadê os cães? Júpiter! Phebo!

Os dois dobermanns se limitaram a ganir lá da figueira, deixando claro que não atenderiam o chamado do dono.

- Mas que preguiçosos! – bradou Ciruilian – E você, quem é?

- Samael Darcângelo ao seu dispor. Novamente, peço desculpas pelo susto, mas é que o interfone não funcionou e como me disseram que o seu caso era urgente...

- Caso?

- Ah, sim! Melhor começar de novo. Sou um investigador particular. Minha amiga, Luciana Bertini, me disse que o senhor está com um problema muito sério e precisa de ajuda.

O rapaz ficou pensativo. Enquanto isso, Samael analisava o elemento. Não tinha mais que 22 anos, com a cara de um Renato Russo jovem e sem barba. Os óculos que ele usava reforçavam sua imagem de intelectual, as mãos finas deixavam claro que nunca tivera que trabalhar levantando algo mais pesado do que um mouse. Na mesinha ao lado da rede onde ele estivera deitado, jaziam vários romances de época, além da coleção completa de Stephanie Meyer. Quer dizer, completa se levarmos em conta aquele exemplar que acabara de se afogar no laguinho das carpas.

Após matutar um certo tempo, Ciruilian pareceu chegar a uma conclusão:

- Bom, vejo que aquela maga fajuta pelo menos fez alguma coisa para justificar o dinheiro que lhe dei! Espero que você também não queira me cobrar antecipadamente porque se for mais um golpe eu chamarei a...

- Garanto que só faremos o acerto caso eu consiga obter o resultado almejado.

- Hmmmm, então venha cá, vamos nos sentar aqui na varanda e lhe contarei meu problema.

Eles se acomodaram e, reunindo coragem, Ciruilian narrou sua triste história:

“Sou o único herdeiro desta casa e também de uma pequena fortuna. Fiquei órfão há uns três anos atrás e desde então vivo sozinho aqui em Piçarras. É uma vida tranqüila, não tem toda a agitação de Belo Horizonte, de onde minha família veio, mas acabei me acostumando ao local. Leio bastante e mantenho o Clube de Leitura Chá das Cinco aqui na cidade.

Enfim, sou um cara tranqüilo e vivo na minha. Tudo começou a mudar há cerca de três meses, quando recebi uma carta de uma prima distante chamada Strix. Nós nunca havíamos nos visto antes e eu lembrava muito vagamente de seu nome na família, mas ela se lembrou de mim na hora da necessidade.

Ela contou em sua carta que havia acabado de se formar em Química e uma grande oportunidade de dar continuidade as suas pesquisas se fazia presente aqui na cidade ao lado, Penha. No entanto, ela não tinha onde ficar e quis saber se poderia passar uns tempos aqui comigo.

Ainda lembro, como se estivesse gravado a fogo na minha mente, da primeira vez que a vi, quando fui buscá-la no aeroporto de Navegantes. Era noite, aqueles vôos econômicos do madrugadão, sabe? Mas a lua cheia estava espetacular. Minha prima apareceu, com seus cabelos crespos e sua pele pálida do tipo “sou mineiro, não sei o que é uma praia”. Confesso que não gostei muito dos seus óculos redondos de coruja, que me impediam de ver seus olhos negros. Ah! Aqueles óculos redondos...”

(cof, cof! – tossiu Samael, fazendo Ciruilian voltar ao planeta terra e continuar a sua história)

“O que mais posso dizer? Ela veio para cá e já no dia seguinte mergulhou no trabalho. Eu quis lhe oferecer o melhor quarto da casa, mas ela explicou que os fungos precisavam de escuridão e umidade. Antes que eu percebesse, ela estava alojada em um quartinho do porão e minha adega no subsolo estava cheia de tocos, terra úmida e tubos de ensaio! E eu... Eu estava adorando tudo aquilo!

Que garota, que garota! Sabe, ela não pensava só em festas como as outras de hoje em dia. Não queria saber nem de telenovela! Modéstia a parte, pude manter com ela conversas de alto nível cultural. Ela sabia tudo sobre Jane Austen e romances de época, parecia apreciar muito os clássicos, mas, sobretudo, era para o seu trabalho que ela vivia. Saia para Penha antes do dia raiar e voltava, às vezes, já tarde da noite. Não raro, continuava suas pesquisas madrugada adentro.

Enfim, ela não incomodava, absolutamente não incomodava ninguém. Porém, ai, ai... Chegamos na parte difícil. Essa cidade tem muitas baladas, muitas formas de fazer com que uma pessoa se perca. Creio que Strix passou a andar em más companhias, provavelmente gente que ela conheceu durante o trabalho em Penha. Sabe, algumas pessoas que vivem em festas e que se viciam com a maior facilidade. Minha prima passou a andar com essa gente...

Eu já estava decidido a pedir sua mão em noivado. Sério! Ela era tão prosaica em certos assuntos que nem me passou pela cabeça tentar um namoro. Então eu comprei uma aliança, ensaiei um discurso e já estava convencido de que o casamento seria a forma de afastá-la das companhias perigosas. Era algo a ser feito com urgência, sobretudo porque havia estourado uma guerra de traficantes na cidade e a situação estava muito perigosa, com uns matando os outros.

Mas, mas, mas... Não deu tempo! Eu coloquei minha melhor roupa para que ela me visse bem bonitão quando voltasse do serviço. Pus as alianças no bolso e fiquei aqui, BEM AQUI, esperando... Então, escutei um disparo vindo da rua. Os cães começaram a ladrar como loucos e eu corri para o local.

Não havia nada a fazer, minha prima estava morta, alvejada no peito por um tiro de espingarda!”

Samael esperou Ciruilian vencer a luta contra a lágrima que ameaçava sair de seu olho direito. Ele estava transtornado demais para continuar a contar sua história sem auxílio. Percebendo isso, Samael iniciou algumas perguntas:

- Ninguém viu nada?

- Não tinha ninguém perto o suficiente naquela hora. Estamos na baixa temporada, sabe? Agosto é um mês frio demais para que alguém fique andando por aí após escurecer.

- Era muito tarde?

- Eram sete da noite, não muito mais do que isso.

- Bem, a polícia deve estar investigando...

- HMPF! A Polícia! Você é que não sabe como as coisas funcionam por aqui! A delegada está pouco se lixando para o ocorrido! Por ela, o caso vai ficar sem solução!

- Então é por isso que você resolveu apelar...

- Sim! Olha a que ponto eu cheguei! Fui procurar a sua amiga, a tal maga Lu, pois dizem que ela lida com magia negra e poderia me ajudar a encontrar o assassino! A que ponto eu cheguei, meu Deus! E nem pensei em chamar um detetive...

- Calma, calma! Ninguém pode pensar em tudo, não é mesmo? Fique aqui na sua varanda, leia um bom livro e deixe o resto comigo. Ah! Falando nisso, é melhor você pescar logo aquele exemplar de Lua Nova, antes que o dano nas páginas se torne permanente.

Ciruilian não notou o gracejo do detetive. Com um misto de fúria e bravura na voz, ele disse:

- Encontre quem deu esse tiro! Juro, por meus pais que estão enterrados no mesmo cemitério onde agora jaz minha prima, que o miserável que fez isso vai pagar caro! Strix está morta, mas ainda vive em meu coração!

- Hip, Hip, Hurra! – gritou Samael – Vamos então à caçada!

 

Capítulo 2 - Sabrina, a Xerife

A primeira parada de Samael foi na delegacia de polícia local. Após se identificar, teve que esperar cerca de quarenta minutos antes que a delegada o autorizasse a entrar em sua sala. Não que houvesse muito serviço por ali, observou Samael, uma vez que dois policiais gordos se limitavam a jogar uma animada partida de truco, enquanto que uma secretaria mostrava toda a sua habilidade ao pintar as unhas e falar ao telefone simultaneamente.

A delegacia parecia um muquifo, cheio de móveis públicos velhos e decadentes, mas a sala da delegada era outro planeta. Era grande e ostensivamente decorada. Um luxuoso tapete de vaca malhada, cadeiras de couro cru e uma escrivaninha de móvel crioulo compunham o quadro principal. Nas paredes, vários prêmios de rodeios, uma sela de montaria, miniaturas de diligências do velho-oeste e um par de chifres de boi emoldurado na parede.

A delegada estava sentada na sua poltrona de couro cru (R$ 2.500,00, avaliou Samael). Usava jeans rasgados, botas e uma camiseta que ficaria muito bem em um concurso de gata molhada, pensou, mas não disse porque não é bobo, o nosso detetive.

Sabrina era ruiva e tinha olhos verdes. Por isso, Samael achou que o chapéu de cowboy cor de creme que ela estava usando não combinava muito. Contudo, não pode levar adiante as suas divagações sobre moda, pois a delegada, pernas cruzadas e esticadas sobre a mesa, começou a falar:

- Samael Darcângelo, detetive particular. Muito bem, em que posso ajudá-lo, mon cher?

- Delegada, antes de tudo, agradeço por ter me recebido. A questão é simples. O jovem Ciruilian me contratou para investigar o assassinato de sua prima, ocorrido há cerca de sete dias. Estou buscando informações para ajudar a polícia nas investigações e julguei melhor começar por fazer essa visita.

Sabrina colocou de lado o charuto que estava fumando, abriu uma gaveta e retirou de lá uma frasqueira e duas xícaras.

- Aceita um pouco de chá? – disse ela, piscando um olho.

Samael sentiu o aroma quando tampa foi aberta:

- Hmmm, deixe-me ver, chá de 18 anos em pacotinhos verdes?

- Quase... Só bebo o de 21, pacotinho azul.

Sabrina serviu uma dose para Samael e outra para si. Tomou tudo de um gole, pousou a xícara e disse:

- Sabe, Piçarras é uma cidade pacata. Tem os problemas que todas as outras cidades têm, nem mais, nem menos. Tem jogo ilegal, tem tráfico de drogas, mas, de um modo geral, tudo sempre andou bem, me entende?

- Sim. – respondeu Samael, olhando novamente em redor e observando que tudo ia realmente muito bem, ao menos para a delegada.

- Essa guerra de traficantes que explodiu há pouco tempo é que tem nos tirado o sossego. Começaram a se matar pelos pontos de venda e isso, claro, culminou com o assassinato daquela pobre moça...

- Não viram quem efetuou o disparo?

- Não. Sem testemunhas. Tudo o que conseguimos e já foi mais que nos outros casos recentes, foi achar a arma usada pelo criminoso. Estava jogada perto de um bueiro, do outro lado da rua. Uma doze cano cerrado. Imagina isso? Atirar numa menina com uma espingarda dessas? Estragaram o velório!

- Mas a casa é bem no centro, ninguém viu nada?

- Não. Havia pessoas andando pela praia, mas o bandido foi esperto em largar a arma. Ele pode fugir caminhando normalmente, como se fosse qualquer um... Passou despercebido, pois muitos correram em direção ao som e ninguém reparou em quem se evadia do local.

- Suspeitos?

- Suspeitos não, certezas! Tenho certeza de que o assassino é gente do bando do traficante Daniel Moutinho.

- Mas não poderia ser alguém da gangue rival?

- Não. A polícia serve para alguma coisa, não? Tenho, digo, nossa equipe tem certeza de que foi gente desse pilantra. Agora, se quiser ajudar mesmo, senhor detetive, sugiro que vá procurá-lo e lhe faça algumas perguntas...

Sabrina ria da idéia, mas Samael a surpreendeu:

- Pois é exatamente o que farei nesse instante.

A delegada levantou-se, aproximou-se do detetive e o observou de alto a baixo. Alias, teve que olhar bem alto, pois Samael tinha quase dois metros de altura por outro tantão de largura. Schwartzenegger passaria vergonha perto dele.

- És muito corajoso, Sr. Darcângelo. Procurar um traficante perigoso que está em guerra declarada nesta cidade. Bom, vai lá, eu te digo onde ele mora. Se ele te matar, pelo menos terei uma desculpa para colocá-lo de vez na cadeia. HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ!

Samael começou a rir também e saiu da delegacia com o endereço do traficante Moutinho nas mãos.

 

Capítulo 3 – Zé Moitão & Portuga, os Traficantes

A mansão do traficante ficava numa área nobre localizada na Zona Norte da cidade. Samael já estava sabendo que Moutinho era novo na área, não mais que dois anos de atuação e sua clientela era menor que a do outro traficante, porém ele buscava atender apenas a alta classe. Por acordo de, digamos, cavalheiros, ele agia na parte norte de Piçarras e daí para cima, enquanto que o outro ficava com o centro, o sul e daí para baixo no litoral catarinense.

Havia forte segurança no local, mas Samael sabia o tom certo para usar com essa gente. Explicou que tinha como ajudar o chefe da cambada a vencer o traficante rival e que por isso queria falar com ele imediatamente.

Demorou uma eternidade, mas por fim, abriram o portão, revistaram o detetive sem a menor cerimônia e, percebendo que ele não estava armado, o conduziram a presença do chefe.

Este se encontrava num escritório recheado de livros por todos os cantos. Samael lembrou que o homem era um ex-professor de literatura do Rio de Janeiro que, por sorte, havia abandonado a carreira para viver do tráfico no sul do país.

Samael tentou entabular uma conversa:

- Boa tarde, Sr. Moutinho...

- Moutinho é o Castro Alves! O meu nome é Zé Moitão, Poe!

- Hmmm... Percebo que vossa mercê ainda não pegou muito bem as gírias do mundo do crime...

Zé Moitão se aproximou de Samael e cochichou:

- É mesmo? Estou tentando usar um tom mais mundano para que meus asseclas atentem para a importância de cumprir sem tardar minhas ordens, ao passo que também não os quero fazendo conjecturas a respeito de meu poder como líder. Por incrível que possa parecer, esse tipo de elemento social associa um linguajar perfeito com tendências homossexuais por parte do falante.

- Não se preocupe, não se preocupe, você está indo bem. – assegurou Samael. – O que me traz a sua presença é o assassinato brutal de uma moça chamada Strix. A delegada Sabrina me informou que o senhor sabe quem do seu bando matou a garota!

Zé Moitão pulou como um cabrito. Seus soldados já iam puxando facas, peixeiras e revólveres, mas ele os deteve com um gesto. Em seguida, gritou para Samael:

- Aquela imunda! É claro que a delegada acoberta o Portuga e ainda pensa em me acusar!

- Perdão... Mas quem é Portuga?

- Ora, é o canalha que começou tudo isso! Foi gente dele que começou a pegar de tocaia meus vendedores, na calada da noite! O maldito não se contenta mais com a parte sul, quer também tomar o que é meu!

- Hmmm, me desculpe, mas veja, meu interesse aqui é apenas esclarecer a morte da prima do meu cliente que, afinal, era uma moça trabalhadora, estudiosa, amante dos livros...

A menção a literatura acalmou o ânimo de Zé Moitão. No entanto, ele se permitiu um pouco de sarcasmo:

- Algumas semanas atrás, a moça estudiosa e trabalhadora passou a comprar mercadoria dos meus agentes... Mas, claro, isso não justifica seu assassinato. Que eu saiba, ela sempre pagou em dia. O Portuga deve estar louco, agora quer começar a matar também a clientela!

- Por que a delegada disse que...

- Ora, não me faça rir! Se a delegada é a viúva Porcina de Piçarras, então o Portuga é o nosso Sinhozinho Malta.

- Entendo, mas duvido que alguém com menos de trinta anos consiga pegar essa referência. Bom, então vou tratar de falar com esse tal Portuga...

Zé Moitão disse, admirado e em voz baixa para que seus subalternados não escutassem a recaída:

- Não tens medo da morte, meu caro. Aprecio a bravura, mais cuidado, pois há pouca diferença entre um herói e um tolo. Encontrarás o Portuga no Morro da Segunda, bem ao sul da cidade.

Subindo o tom de voz, acrescentou para que todos na sala escutassem:

- E diga para o sacana do Portuga que os dias dele estão contados! Foi ele que começou a atirar de Doze em meus vendedores! Ele estragou nossos velórios, pois a gente vamos estragar o velório dele!

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Já eram quatro horas da tarde quando Samael conseguiu novamente driblar a severa segurança e já se encontrava no alto do Morro da Segunda onde, numa casa bem melhor que os barracos ao redor, o maior traficante da região o recebia.

- Obrigado por permitir essa entrevista, Sr. André Lopes...

- Pode me chamar de Portuga, todos me chamam assim. – respondeu o traficante que estava bem à vontade, pois sabia que, se Samael tentasse qualquer coisa, levaria uma bala antes de dizer “ai”.

André Lopes vestia uma camisa do Vasco, pelo visto era mais um empreendedor carioca que resolvera se dar bem no sul do país. Alisando o seu bigodão de dono de padaria, ele disse:

- Creio que a delegada Sabrina deve ter lhe contado que quem começou essa confusão toda foi o Zé Moitão...

Samael achou melhor não dizer que estava sentindo ali, na sala, o cheiro da fragrância Amor Gaúcho, o mesmo perfume que sentira na sala da delegada. Era inconveniente entrar nos assuntos das ligações perigosas envolvendo agentes da lei e traficantes. Ele se ateve ao caso:

- Como tudo isso começou?

- Ora pois! Começou com o menor tentando tomar o lugar do maior. Zé Moitão começou a armar tocaia e a atirar nos meus vendedores! Gente dele também começou a morrer, claro! E, agora, imagine, atirar numa cliente! Ele está doido!

Samael se levantou, colocou seu boné de volta na cabeça e disse, em tom de despedida:

- Pelo visto, o clima aqui em Piçarras não vai esfriar tão cedo.

- Ora! Tu não viste nada ainda, ó gajo! Zé Moitão andou estragando uma porção de velórios por aqui, o que é dele não tarda em chegar! Vai! Passa fora e fica longe se não quiseres que sobre para ti também!

 

Capítulo 4 - Strix, a Morta

Já era fim de tarde.

- Não entendi! – disse Ciruilian, sentado em sua cadeira preferida. – Quer dizer que você tem um plano para pegar, hoje mesmo, o bandido que matou Strix e precisa da minha ajuda? Mas, como? Como faremos isso?

Samael sorriu e começou a explicar:

- Vai ser uma operação simples. Os ataques estão sendo realizados na calada da noite. Geralmente, um traficante fica ali, num ponto mais distante e deserto, a espera de compradores. Você vai se fazer passar por um desses traficantes e ficará em um ponto isolado bem ao sul da praia, servindo de chamariz.

- Ah, claro, beleza! Mas só tem uma parte que não me agrada. O bandido vai se aproximar de mim com uma espingarda e me matar. Não concordo absolutamente com isso!

- Bem, admito que é arriscado, mas eu estarei por perto, escondido. Aguardarei até o último momento e então aparecerei em cena. Agora é contigo, o quão determinado você está? Estarei te esperando aí fora. Decida-se...

Ciruilian ficou ali, em sua varanda, refletindo sobre o seu desejo de vingança. O plano poderia dar certo, claro, até que era uma boa armadilha, mas como Samael poderia saber que o bandido iria atacar naquela noite? E se fosse mais de um crimonoso? Como dariam conta do recado? 

Ele pôs a mão no bolso e retirou de lá a aliança que pretendia dar a Strix. Uma chama se acendeu em seu peito. As chances eram poucas e Samael, aquele Magnum de araque, não inspirava a menor segurança. Porém, ele tinha que tentar. Correu até seu quarto e pegou o revolver que herdara de seu pai. Era um pequeno Taurus .32, mas daria conta do recado!

O assassino de sua prima estava com as horas contadas!

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Já era quase meia-noite.

O local escolhido por Samael ficava praticamente em Penha, balneário vizinho, e era longe de tudo. Só dava para escutar o barulho do mar naquela noite calma e enluarada. Ciruilian lembrou-se da noite em que passeara com Strix pela areia, ambos banhados ao luar, numa felicidade sem palavras...

- Huááááá! – bocejou Samael, como se estivesse adivinhando os pensamentos que iam pela cabeça de seu cliente.

- Olha, vou me esconder por perto. – disse o detetive - Você fique aqui, com esse jaquetão e esse boné que lhe dei. Fique calmo, não perca a cabeça e lembre-se que estarei por perto e vigilante. Ok?

- Positivo operante! – disse Ciruilian, num inesperado gracejo.

O tempo foi passando. A lua ia subindo no horizonte. Ciruilian começou a sentir frio, apesar do jaquetão, mas ficou firme ali, com a cabeça meio abaixada, procurando imitar um dos traficantes da região. Não passava uma alma viva pelo local e até o ruído do mar começou a lhe dar nos nervos.

“Onde se meteu esse Samael?” – pensou o falso traficante. Ele olhou algumas vezes em derredor, mas a sensação de solidão só aumentava e o oprimia. Então, de repente, o cabelo eriçou em sua nuca.

De algum modo, apesar de não ter havido um ruído sequer, Ciruilian sabia que alguém estava atrás dele. Lá estava o bandido, pronto para atacá-lo. Ele sabia, mesmo sem se virar, ele sabia! A hora havia chegado!

Desta vez, porém, seria diferente. “Essa é por você, Strix!” – foi isso a última coisa que Ciruilian pensou antes de sacar a arma da cintura e se virar, atirando como um relâmpago.

BANG!

BANG! BANG! O tiro ecoou noite afora, só faltou aparecer a Nancy Sinatra para continuar a música You shoot me down, bang bang, I hit the ground, bang bang...

Ciruilian acertou o tiro bem no abdômen de quem chegava pelas suas costas. Acertou quase à queima-roupa, só não contava que a pessoa atingida fosse sua prima Strix.

Strix estava lá, pálida e com o mesmo vestido branco com que fora enterrada, segurando o abdômen atingido com as mãos e olhando pasma para Ciruilian, pois não esperava vê-lo ali. Este, por sua vez, deixou cair o revólver e o queixo no chão. Os dois estavam atônitos.

 

Capítulo 5 - Samael, o Mentiroso

CLAP! CLAP! CLAP! Surgiu Samael, do meio da escuridão, todo vestido de preto, batendo palmas.

- Bravo! Bravo, Ciruilian! Que belo tiro, hein?

- Mas, mas, mas... Gá... Ahhhhh...

- Ora, vamos, Cir! Pare de lutar contra o seu subconsciente. No fundo, você sempre soube da verdade, não? Uma prima que você nunca tinha visto e que, desde a madrugada em que foi buscá-la no aeroporto, só viu durante a noite! Uma criatura pálida que escolheu viver num porão e que tinha uma conversa exatamente igual a das garotas dos romances de antigamente, muito antigamente... Alguém que saía para o trabalho antes do raiar do sol e só aparecia após o anoitecer... Não me admira que você tenha passado esses últimos meses lendo Stephanie Meyer e coisas do tipo.

Strix nada falou, estava visivelmente se recuperando do disparo sofrido. Ciruilian ainda não havia conseguido recolocar o queixo no lugar. Então, Samael continuou:

- Strix está morta, mas ainda vive, ponto. Foi isso o que lhe disse a maga. Alias, tenho que ter uma conversa séria com ela sobre isso... Mas, enfim, sua prima vive de sugar o sangue dos outros, por isso está morta e viva ao mesmo tempo. Creio que ela ficou sabendo de um primo rico aqui por estas bandas e decidiu se mudar para cá. Sabe como é, nesse ramo de atividade, é preciso migrar sempre em busca de novos rebanhos.

“Mas Strix não mata qualquer um, não é mesmo, minha cara? Oh, não me olhe desse jeito feroz, pois Ciruilian pediu pela verdade e, portanto, tem o direito de saber de tudo. Saiba, Cir, que Strix caça traficantes. Um plano genial, diria eu. Ela ataca esses vendedores noturnos, se alimenta e logo após os executa com um tiro de Doze bem no local em que deu a mordida. Qual o médico legista que dará pela falta de sangue onde falta quase que uma cabeça inteira?”

Ciruilian não conseguia falar, tudo que repetia era:

- Mas, mas, mas... Impossível!

- Não seja teimoso, Cir. Já não lhe contei que um chefão pensa que é o outro que começou essa guerra e vice-versa? Na verdade, não foi nenhum dos dois. Após identificar os traficantes, foi sua prima que começou a se alimentar deles e, depois, executar os bandidos com a espingarda estraga-velório.

“Creio que Strix pretendia se estabelecer por aqui, quem sabe até tomar o seu lugar e herdar sua fortuna, mas então algo inesperado aconteceu...”

Strix falou pela primeira vez. Exceto pelo buraco no vestido, ninguém diria que ela havia acabado de levar um tiro:

- Pare de escutar essas tolices, Cir. Eu confesso que não tive coragem de matar você, seu pateta! Tive que simular minha morte e seguir adiante, tão logo percebi que você queria até me pedir em casamento. Achei que teria coragem de matá-lo, mas... Você não é um traficante, ou um assassino, ou um político... Você é apenas um, um... Argh!

Strix se enfureceu. Duas presas afiadas surgiram na arcada superior de sua boca e, com ódio no olhar, ela investiu contra Samael.

- Maldito seja! Agora terei que matar vocês dois!

A reação de Samael foi inesperada, pois ele apenas estendeu o braço, dizendo:

- Vá com calma, minha cara, que você não sabe da missa negra a metade. Antes de sugar meu sangue, que lhe ofereço de bom grado, saiba que Ciruilian não andou parado enquanto você se recuperava por sete dias em seu caixão.

Strix percebeu então algo nos olhos negros de Samael que a fez parar sua investida. Se uma vampira pudesse ficar mais pálida do que já era, Strix teria ficado naquele exato instante.

- Ah! Vejo que enfim está percebendo a situação. Ciruilian procurou minha agente local, a maga Luciana Bertini, e se dispôs a pagar qualquer preço para saber a verdade. Bom, Ciruilian, eu acabo de cumprir a minha parte no acordo, então...

Ciruilian finalmente entendeu quem era Samael e porque ele podia pular cercas de quatro metros de altura, afugentar dobermanns de guarda, ler pensamentos e saber onde vampiros iriam aparecer. Ciruilian entendeu tudo isso e caiu de joelhos, pois já sabia o que estava para ouvir e, de repente, sentiu a danação que se aproximava.

- Cumpri minha parte e agora posso cobrar o preço que você se dispôs a pagar. Todo mundo tem uma alma imortal, Cir, e a que você tem, a partir desta noite, pertence a mim. Quando você morrer, eu a receberei de asas abertas.

Voltando-se para Strix, Samael prosseguiu:

- Samael significa o Veneno de Deus. Vá em frente, Vampirela, se acha que pode provar deste veneno, aqui está meu braço.

Strix, ainda de presas saltadas, voltou-se para Ciruilian:

- Seu idiota! O que você fez! Um pacto! Um maldito pacto! Condenou sua alma ao inferno!

Sem mais delongas, Strix saltou sobre Ciruilian, cravando-lhe as presas no pescoço e sugando seu sangue com uma rapidez estonteante. Ele não resistiu, foi ficando apenas tonto, cada vez mais tonto e então soube que sua hora havia chegado.

- Parece que receberei meu pagamento ainda hoje. – disse Samael, com um riso de escárnio.

No entanto, a noite estava cheia de surpresas. Strix, mais que depressa, puxou a manga de seu vestido, mordeu o pulso e deu o próprio sangue para seu primo beber:

- Rápido, enquanto ainda está consciente.

Ciruilian bebeu o sangue da vampira e então sentiu seu coração parar. “Fui para a banha” - foi seu último pensamento em vida. Mas, logo a seguir, ele percebeu que suas forças iam voltando. Lentamente, mas iam voltando. Que estranho era aquilo, pois ele ia se sentindo melhor, apesar de estar gelado e de seu coração não estar mais batendo.

Strix se levantou e ficou entre Ciruilian e Samael, falando para esse último:

- Você pode ter a alma dele apenas quando ele deixar de existir aqui na terra. Eu acabo de transformá-lo num dos da minha espécie. Saiba que eu já vivo por mais de trezentos anos, se Deus quiser, Ciruilian viverá pelo menos mais mil!

Samael nada disse. Strix não havia recolhido as presas. Ela desafiou:

- Se pensa em matá-lo agora, então terá que me enfrentar!

Era o momento!

O vento aumentou de intensidade, agitando os cabelos negros dos dois rivais. De algum ponto distante, veio chegando um rolo de capim que passou rolando entre os dois oponentes.

Em um universo paralelo, onde estes acontecimentos reais eram apenas um conto escrito por um maluco, a leitora Luciana Vitiello parou subitamente de acariciar seu cachorro fofo chamado Nick e aproximou o nariz da tela, roendo as unhas por causa da ansiedade. “Vai acontecer! Samael e Strix vão lutar!

Em outro universo paralelo, onde o conto sobre estes acontecimentos reais era apenas outro conto escrito pelo mesmo maluco do universo anterior, o cão Nick parou subitamente de acariciar sua humana fofa chamada Luky e aproximou o focinho da tela, roendo as garras por causa da ansiedade. “Vai acontecer! Luky vai ler sobre a luta entre Samael e Strix!

Em outro universo paralelo… CHEGA!

Strix não tirava os olhos de seu oponente. As chances eram poucas, mas ela era (ou fora) uma brasileira e por isso não desistia nunca. Pelo menos, seria um fim de pós-vida glorioso.

A tensão chegou ao ápice e então, Samael riu.

- Há Há Há! Realmente vocês me decepcionam. Então quer dizer que o Ato de Amor de Ciruilian, sacrificando sua alma para lhe fazer justiça, Strix, seria algo capaz de condená-lo ao fogo eterno? É ruim, hein!

Samael começou a se afastar, mas sem dar as costas aos dois, erguendo-se do solo graças a duas asas negras como as de um corvo e tão grandes que tocavam o horizonte.

- Sejam felizes, pombinhos, ou melhor, morceguinhos. Melhor que um, só mesmo dois vampiros caçando bandidos e enviando almas para meus domínios. Ah! Piçarras anda agitada demais para vocês. Recomendo uma mudança de ares, sugiro Brasília...

Dizendo isso, ele voou para longe, desaparecendo na escuridão, que pareceu se abrir para recebê-lo.

Strix coçou a cabeça e disse, um pouco encabulada, enquanto ajudava Ciruilian a se levantar:

- Bem, bem, não se pode ganhar todas quando o adversário é o Príncipe das Mentiras, não é mesmo?

Ciruilian nem prestava atenção. Tudo o que importava na sua cabeça era que Strix tinha agido para lhe salvar a alma. Ele se aproximou, todo romântico, dizendo:

- Prima Strix, eu nunca tive chance de lhe dizer isso em vida, mas agora que passaremos a eternidade juntos, acho que é hora de...

E foi se aproximando, fechando os olhos e já fazendo biquinho para tascar um beijo na bela prima, como convém fazer ao final de uma boa história.

Tudo o que recebeu por sua tentativa foi um tapão no pé do ouvido que lhe fez ter a certeza de que até seus netos nasceriam surdos.

- Tá pensando o quê, Cir? Fique sabendo que agora que te transformei em vampiro, você passou a ser meu escravo e tem muito o que aprender ainda! Pode ir se preparando para uma década de lições! Vamos andando que temos que chegar a algum abrigo antes de amanhecer. E já vá pensando num jeito de vender tudo aqui porque estamos de partida rumo ao Planalto Central! Ah! E tente se aproximar com essas gracinhas de novo que logo vai preferir ter ido para o inferno!

Strix fez todo esse discurso e se virou, começando a andar em direção a cidade. Ciruilian, apesar do sermão que havia levado, começou a segui-la, tão feliz que mal cabia em si. Afinal de contas, aquela mulher havia enfrentado o diabo por ele, não havia?

Ele alcançou Strix e começou a circular em volta dela, dançando e cantarolando: Its close to midnight, something evil's lurkin' in the dark… Ela até tentou, mas não conseguiu esconder um risinho. Era a primeira vez, nos últimos dias, que Ciruilian estava realmente feliz, seu pós-vida não poderia ter começado de forma melhor.

FIM

8月27日

Ninja de amarelo só mesmo em filmes

Existem pequenas cenas do cotidiano que são impagáveis e feliz é aquele que está presente e que presta atenção no lugar certo, na hora certa.
Por exemplo, de manhã cedo, eu acordei e fui direto para o computador, que se localiza numa escrivaninha ao lado do guarda-roupa. Passam-se alguns minutos, onde o único som é o do meu digitar no teclado. Um som alto, porque eu martelo as teclas com apenas dois dedos. Aí, num intervalo para a leitura das notícias do dia, um ruído inesperado vem de trás da porta do guarda-roupa que eu havia percebido aberta e que fechara antes de chegar ao computador.
Percebi então que eu havia trancado os gatos da casa dentro do móvel. Claro, eles estavam lá, sobre as roupas da Lisa, tirando uma soneca ilegal. Mas isso não vem ao caso, pois o interessante foi observar.
Um ruído de algo empurrando a porta e logo surge uma pata preta. Amélie, a gata ninja, esticou sua patinha preta para fora, a torceu como se fosse uma mão humana, agarrou o canto da porta e forçou a porta para fora, o suficiente para escapulir da 'prisão' em menos de dez segundos. Além do pequeno ruído inicial, só ouvi um 'nhec' da porta abrindo um pouco e voltando a fechar por conta da mola. Amélie não fez um ruído sequer, caiu silenciosa no chão e partiu como um raio em direção à cozinha.
Voltei ao computador. Dois minutos depois, novo ruído vindo da mesma porta. Nino, o canalha amarelo, também estava preso e resolveu imitar a fuga de Amélie. Saí então da porta uma pata laranja que fica balançando no ar, em todas as direções, sem nenhum propósito aparente e também sem nenhum resultado prático. Ouve-se um "rrrrrummm" de desaprovação emitido lá dentro do armário. Novos ruídos de movimentação por lá, uma cabeçada na porta... Sem resultado. Outra vez sai a pata, abanando para todos os lados, parecendo um daqueles bonecões de posto. Volta a pata e ouvem-se mais resmungos. Finalmente, bate o desespero e patas começam a arranhar a porta, na esperança de talvez cavar uma saída dali.
Nesse ponto, eu já sabia que em segundos começaria a Sinfonia em Mi Maior e corri para libertar o indivíduo meliante. Ele saiu da sua 'prisão' resmungando devido a demora no atendimento.
Realmente, só um deles sobreviverá ao apocalipse zumbi...

 
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